terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Túnel


Então havia uma noiva, um noivo e, ao que tudo indica, paixão. Além, é claro, das dificuldades usuais de um romance. O caso é que ele morava numa terra proibida e ela teria, na sua condição de mulher, ir até onde ele estivesse, segui-lo para onde ele fosse. Pois bem, eles, os noivos, eles se amavam sem ter até então sabido do cheiro e do gosto um do outro, tinham se contentado até então com algo vago como a voz e imagem, transmitida, durante algumas semanas, pela Internet. Isso parece estranho para pessoa como eu, que atribuo tanta importância ao cheiro, à textura, ao sabor que pode ter o corpo amado, mas tinha sido o suficiente para que eles confirmassem o acerto do casamento. A essa altura, os dois já haviam firmado o compromisso de se casar, segundo a sua tradição. Eram árabes, os noivos. E também eram primos. É claro que o noivo esforçou-se para trazê-la até si por um modo lícito, de maneira digna. No entanto, não se pode esquecer que a sua terra era proibida e que a sua nação, desde há muito condenada à extinção, sobrevivia de coragem, teimosia e, de resto, falta de opção. A brava resistência do povo do noivo consistia, basicamente e na maior parte do tempo, em teimosamente sobreviver. Enfim, tendo feito o noivo o que lhe era então possível, exigiu da noiva que viesse assim mesmo, de forma perigosa e indigna: ela teria que rastejar por dias através de um comprido túnel até seu encontro, na sua terra (a do noivo), e só então o amor entre os dois seria possível. A noiva, é claro, imediatamente aceitou a condição, é mesmo difícil imaginar sacrifício que fosse grande demais, ou obstáculo inatingível, para uma mulher que parte em direção à miragem que lhe é incutida desde muito cedo como ideal romântico: a remissão de todas as angústias através desse estranho sentimento de completude que só seria possível através do amor. De fato, estou supondo o que a moça sentiu, baseada nas minhas próprias experiências. Bem, e se falo especificamente do que imagino que sintam as mulheres, não é porque ignoro que os homens também tem os seus sonhos românticos, mas porque somente as mulheres é que são incitadas a acreditar que a realização pessoal vem através do outro; nesse nosso mundo, os homens ainda têm o direito a ter outros interesses (aqui falei de mim e não da moça; mas de que mais posso falar?). Talvez as graves dificuldades por que passam o noivo e o seu povo, talvez a descoberta de incompatibilidades não detectadas nas duas semanas de namoro à distância, possam criar danos irreparáveis ou mesmo destruir por completo esse incipiente romance. Talvez tudo isso lhes traga a força e cumplicidade necessária para uma convivência harmoniosa – um sendo o alento do outro. Mas o que me toca, e me deixa em suspenso, é a moça no túnel. Não sei se o túnel era escuro, mas sempre me parece que era. Que ela rastejou no escuro, e que os seus olhos brilhavam. Todas as esperanças que iam com ela, toda a alegria de ir ao encontro de algo impossível – o amor! O amor, da forma como me disseram que era enquanto eu formava a minha pobre, frágil personalidade, é o que há de mais lindamente impossível no mundo. Atravessaria todos os túneis, no escuro, sob o risco de bombardeios, talvez até mesmo me arriscasse a salvar o mundo, de puro egoístico amor. E para quem pensa que essa energia é toda é mal direcionada, bem, eu só posso concordar. Mas é uma armadilha tão brilhantemente tecida, e tão atraente é essa teia! E são tantos os túneis, meu deus!

texto: Rosi

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Oi, eu sou um pinguim.


Outro dia vi em algum lugar obscuro da programação noturna da TV a cabo, que os pinguins vão se extinguir devido ao aquecimento dos pólos e consequentemente ao derretimento da casa deles, sim eu fiquei triste.

Quando eu era criança, a piada interna minha e de minha irmã era chamar nosso pai de pinguim, devido ao jeitinho dele andar e de sua barriguinha de cerveja, realmente era engraçado apelidar nosso pai pelas costas, visto que diante dele tínhamos que estar sempre, no mínimo, comportadas e caladas.

Mas bem como diz a máxima, o feitiço sempre vira contra o feiticeiro. Para meu desgosto assim que conheci meu marido, e ele conquistou um pouco de intimidade, inventou de me chamar de algum apelidinho carinhoso como costumam fazer os casais bregas, e me chamou é claro, de pinguim. Sim, também devido ao meu jeito de andar e minha barriguinha de cerveja. Acabei me tornando mais parecida com meu pai do que planejara.

Pensar sobre como alguém fica parecido com um bicho é um tanto natural, por isso nem sinto remorsos pelo, na época, cruel apelido que demos a nosso pai. Desde a escola usamos nomes de animais para tirar com nossos coleguinhas. Fulano que tem risada de hiena, Ciclano com nariz de tucano, Beutrano gordo como um porco, e assim vai, a lista é tão criativa como a imaginação de uma turminha da segunda série.

Mas desde que saí da tal segunda série do colegial e entrei na segunda série da faculdade, comecei a repensar os pinguins e me irritar menos com meu marido e seu apelidinho inocente. Descobri que pinguins são ótimos. Gostaria que metade dos meus amigos fossem pinguins.
Além do jeito desajeitado de andar, eles também passam a vida toda andando na direção do mesmo par. O futuro marido pinguim passa muito tempo para escolher a melhor pedrinha da praia para sua pretendente. Se ela gostar do presente, e do candidato é claro, passam a vida inteira juntos, sim, eu sou sentimental.

Depois do casamento selado pela pedrinha, o casal tem seus lindos ovinhos, que o próprio pai choca enquanto mamãe pinguim navega os mares reservando alimento para o bebe. Também gostaria que metade dos pais do mundo agisse como pinguins, o mundo seria um lugar muito mais saudável.

Já não me irrito quando meu marido me chama de pinguim, até gosto, mas confesso que não chamo mais meu pai assim. Espero que todo o gelo do mundo não derreta.

texto e ilustra: lepih

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

benditos cinco minutos


Os benditos cinco minutinhos a mais na cama. Quem nunca, ou melhor, sempre, desliga o despertador, dá aquela espreguiçada e vira para o outro lado? São só mais cinco minutinhos, já dizia desde pequena.
Cinco minutinhos de sono, de sonho, do quentinho da cama. Nosso dia repleto de atividades e desprazeres, que geralmente só mostra recompensa no final do mês junto com o holerite, já ocupa parte importante de mais em nossa vida, deixar que não permita esses cinco minutinhos singelos de satisfação interior já é muita maldade.

Geralmente estamos tão preocupados com tudo que precisamos fazer que nos podamos desses deliciosos momentos na cama. Digo por auto-afirmação de isenção de culpa. Sempre me sinto culpada por desejar ardentemente esse tempo de ouro. Colocaram em nossas cabeças que precisamos estar de pé, prontos, café e banho tomado com cabelo penteado sem nem mesmo perceber como ficamos assim. Penso que se cada minuto é preciso, como costumam afirmar os livros de auto-ajuda, devemos olhar, e saborear cada um deles, principalmente os matutinos. Momentos em que nos construímos para viver, ou agüentar o restante do dia, sem parecer depressiva.

Há quem diga que compromissos são responsabilidades e que estar pontualmente com seu cartão na máquina da empresa as 07h35min mostra como você é uma pessoa exemplar. E que se ter tempo para saborear sua manhã e sua cama quentinha é tão importante, acorde mais cedo para isso. Balela. Poderia até colocar o despertador meia hora mais cedo mesmo, até penso sobre isso enquanto saio atrasada, mas seria como negar a autoridade que quero ter em minha própria cama. Os cinco minutos são meus, a cama é minha, e oras a vida também, quero vive-la.

Que vida ingrata seria, acordar em um pulo como um zumbi programado, vestir a primeira roupa que pisca no armário, engolir uma maça enquanto corre pelo portão á fora e descobrir em uma esquina qualquer que este é o seu dia, para viajar por mais além, e acabar nem chegando mesmo a maquininha dos cartões. Engraçado como a etiqueta da pontualidade desaparece sutilmente quando você morre.

Minha mãe sempre nos acordava com muito jeitinho, achando nosso pé no final da cama e dizendo com carinho, acordem queridos, é dia de sair cedo. Depois de mais cinco minutos quando realmente acordávamos, fazia nosso café e podíamos sentar juntos para conversar um pouco antes de sair. Meus atrasos constantes podem ser resultado disso é claro, mas longe de mim culpá-la, pelo contrário, agradeço-a sempre por ter sido tão gentil e me ensinado que o tempo da manhã, por mais curto que pareça, é precioso de mais para se perder com correrias. Prefiro fazer tudo com calma.

Compromissos e responsabilidades são fundamentais na vida adulta, mas o preço pode ser alto quando os colocamos na frente do compromisso que temos com nós mesmos. Por isso me declaro totalmente inocente no caso do atraso diário. A réu apenas quer ter o prazer de viver os cinco minutos pós-despertador para si mesma em sua cama. Quem puder dizer o contrário, que se ocupe mais com seu despertador.


texto e ilustra: lepih