Os benditos cinco minutinhos a mais na cama. Quem nunca, ou melhor, sempre, desliga o despertador, dá aquela espreguiçada e vira para o outro lado? São só mais cinco minutinhos, já dizia desde pequena. Cinco minutinhos de sono, de sonho, do quentinho da cama. Nosso dia repleto de atividades e desprazeres, que geralmente só mostra recompensa no final do mês junto com o holerite, já ocupa parte importante de mais em nossa vida, deixar que não permita esses cinco minutinhos singelos de satisfação interior já é muita maldade.
Geralmente estamos tão preocupados com tudo que precisamos fazer que nos podamos desses deliciosos momentos na cama. Digo por auto-afirmação de isenção de culpa. Sempre me sinto culpada por desejar ardentemente esse tempo de ouro. Colocaram em nossas cabeças que precisamos estar de pé, prontos, café e banho tomado com cabelo penteado sem nem mesmo perceber como ficamos assim. Penso que se cada minuto é preciso, como costumam afirmar os livros de auto-ajuda, devemos olhar, e saborear cada um deles, principalmente os matutinos. Momentos em que nos construímos para viver, ou agüentar o restante do dia, sem parecer depressiva.
Há quem diga que compromissos são responsabilidades e que estar pontualmente com seu cartão na máquina da empresa as 07h35min mostra como você é uma pessoa exemplar. E que se ter tempo para saborear sua manhã e sua cama quentinha é tão importante, acorde mais cedo para isso. Balela. Poderia até colocar o despertador meia hora mais cedo mesmo, até penso sobre isso enquanto saio atrasada, mas seria como negar a autoridade que quero ter em minha própria cama. Os cinco minutos são meus, a cama é minha, e oras a vida também, quero vive-la.
Que vida ingrata seria, acordar em um pulo como um zumbi programado, vestir a primeira roupa que pisca no armário, engolir uma maça enquanto corre pelo portão á fora e descobrir em uma esquina qualquer que este é o seu dia, para viajar por mais além, e acabar nem chegando mesmo a maquininha dos cartões. Engraçado como a etiqueta da pontualidade desaparece sutilmente quando você morre.
Minha mãe sempre nos acordava com muito jeitinho, achando nosso pé no final da cama e dizendo com carinho, acordem queridos, é dia de sair cedo. Depois de mais cinco minutos quando realmente acordávamos, fazia nosso café e podíamos sentar juntos para conversar um pouco antes de sair. Meus atrasos constantes podem ser resultado disso é claro, mas longe de mim culpá-la, pelo contrário, agradeço-a sempre por ter sido tão gentil e me ensinado que o tempo da manhã, por mais curto que pareça, é precioso de mais para se perder com correrias. Prefiro fazer tudo com calma.
Compromissos e responsabilidades são fundamentais na vida adulta, mas o preço pode ser alto quando os colocamos na frente do compromisso que temos com nós mesmos. Por isso me declaro totalmente inocente no caso do atraso diário. A réu apenas quer ter o prazer de viver os cinco minutos pós-despertador para si mesma em sua cama. Quem puder dizer o contrário, que se ocupe mais com seu despertador.
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