Então havia uma noiva, um noivo e, ao que tudo indica, paixão. Além, é claro, das dificuldades usuais de um romance. O caso é que ele morava numa terra proibida e ela teria, na sua condição de mulher, ir até onde ele estivesse, segui-lo para onde ele fosse. Pois bem, eles, os noivos, eles se amavam sem ter até então sabido do cheiro e do gosto um do outro, tinham se contentado até então com algo vago como a voz e imagem, transmitida, durante algumas semanas, pela Internet. Isso parece estranho para pessoa como eu, que atribuo tanta importância ao cheiro, à textura, ao sabor que pode ter o corpo amado, mas tinha sido o suficiente para que eles confirmassem o acerto do casamento. A essa altura, os dois já haviam firmado o compromisso de se casar, segundo a sua tradição. Eram árabes, os noivos. E também eram primos. É claro que o noivo esforçou-se para trazê-la até si por um modo lícito, de maneira digna. No entanto, não se pode esquecer que a sua terra era proibida e que a sua nação, desde há muito condenada à extinção, sobrevivia de coragem, teimosia e, de resto, falta de opção. A brava resistência do povo do noivo consistia, basicamente e na maior parte do tempo, em teimosamente sobreviver. Enfim, tendo feito o noivo o que lhe era então possível, exigiu da noiva que viesse assim mesmo, de forma perigosa e indigna: ela teria que rastejar por dias através de um comprido túnel até seu encontro, na sua terra (a do noivo), e só então o amor entre os dois seria possível. A noiva, é claro, imediatamente aceitou a condição, é mesmo difícil imaginar sacrifício que fosse grande demais, ou obstáculo inatingível, para uma mulher que parte em direção à miragem que lhe é incutida desde muito cedo como ideal romântico: a remissão de todas as angústias através desse estranho sentimento de completude que só seria possível através do amor. De fato, estou supondo o que a moça sentiu, baseada nas minhas próprias experiências. Bem, e se falo especificamente do que imagino que sintam as mulheres, não é porque ignoro que os homens também tem os seus sonhos românticos, mas porque somente as mulheres é que são incitadas a acreditar que a realização pessoal vem através do outro; nesse nosso mundo, os homens ainda têm o direito a ter outros interesses (aqui falei de mim e não da moça; mas de que mais posso falar?). Talvez as graves dificuldades por que passam o noivo e o seu povo, talvez a descoberta de incompatibilidades não detectadas nas duas semanas de namoro à distância, possam criar danos irreparáveis ou mesmo destruir por completo esse incipiente romance. Talvez tudo isso lhes traga a força e cumplicidade necessária para uma convivência harmoniosa – um sendo o alento do outro. Mas o que me toca, e me deixa em suspenso, é a moça no túnel. Não sei se o túnel era escuro, mas sempre me parece que era. Que ela rastejou no escuro, e que os seus olhos brilhavam. Todas as esperanças que iam com ela, toda a alegria de ir ao encontro de algo impossível – o amor! O amor, da forma como me disseram que era enquanto eu formava a minha pobre, frágil personalidade, é o que há de mais lindamente impossível no mundo. Atravessaria todos os túneis, no escuro, sob o risco de bombardeios, talvez até mesmo me arriscasse a salvar o mundo, de puro egoístico amor. E para quem pensa que essa energia é toda é mal direcionada, bem, eu só posso concordar. Mas é uma armadilha tão brilhantemente tecida, e tão atraente é essa teia! E são tantos os túneis, meu deus!
texto: Rosi
Eu entraria no túnel...já entrei?!?
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