Ela acorda de olhos fechados, vê o passado que ainda não se foi, recusa o presente e foge, foge lentamente do futuro que se mostra na esquina. Tem dias que é tão triste acordar. Ficam na cabeça imagens tristes, sem vida, de hospital e U.T.I. As ultimas imagens de seu pequeno anjo, um malandro de nascença, esperto e amável, sobretudo amável.
Costumava ver seu sorriso aberto, hoje lhe sobram expressões forçadas de um falso contentamento pelas coisas que a vida lhe empurra. Ela sofre por ter feito, por ter deixado de fazer, por não ter sido suficiente. Tento consolá-la, mas não há nada que posso fazer a não ser apelar para suas crenças, e tentar crer junto com ela, que de fato, Deus estava lá.
Eu durmo de olhos abertos, vejo o passado que ainda não se foi, não acredito no presente que presencio e fujo, fujo de tentar imaginar como vai ser o futuro, o futuro sem ele. Tem dias que é tão triste dormir. Ficam em minha cabeça, imagens de tudo que ela me disse que foi, dos últimos dias e as imagens que vi, de alegria, felicidade e amor, de todo o amor que tivemos.
Éramos simples, o que basta para ser feliz, éramos tão felizes. Costumava como ela, manter um sorriso aberto. Mas hoje me sobram expressões alegres, de contentamento, que na verdade constroem uma parede de concreto que escondem a saudade dentro de mim.
Dizem os britânicos que saudade é a sétima palavra mais difícil de traduzir. Sete é um número intrigante, a saudade também é. Talvez seja verdade. Mas confesso que poderia passar a vida buscando mil traduções, não me importaria, o que machuca é passar a vida sentindo-a, tão amarga e dolorosamente, essa saudade.
Não sabia que olhar um parque, tocar uma foca de pelúcia ou mesmo abraçar um cobertor podia doer tanto. Não sei de muita coisa ainda, e cada vez mais entendo isso.
Ela continua de olhos fechados, recusa água. Ele queria tanto e ela não pode lhe dar.
Estranho como tudo machuca, o estrago que a falta faz. O que nos resta? Éramos tão simples. Talvez isso tudo seja realmente irreal, nossa vida seja um poço de irrealidade. Talvez esse seja um mundo paralelo ao qual nunca pertencemos, e apenas acreditamos fazer parte pelo simples fato de não sabermos sobre o restante, sobre o antes e o que virá. Um tudo que nos leva e que logo vamos deixar para trás, descobrindo a real razão de ser. Talvez, porém, isso tudo só sejam devaneios que me ocorrem para tentar camuflar a estúpida saudade que fura a mim, e a ela. Isso também eu já não sei.
texto: lepih
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
segundas impressões
sinto que não estou preparada para o mundo. as coisas, os fatos, as pessoas, tudo me ultrapassa, tudo acontece tão longe de mim, e quando me atinge é sempre assim, de repente como uma lufada de vento gelada que desaparece tão rápido, tão rápido, e deixa as minhas faces vermelhas, eu nunca entendo exatamente que diabos aconteceu. não sei se a imagem é boa, mas o fato é que ainda como que sinto o frio na minha face e agora, depois de algum tempo, percebo o real significado da morte. e sinto um gosto meio velho e rançoso, como se a vida estivesse de repente contaminada com a minha ridícula e silenciosa revolta. tudo parece um pouco mais escuro.
...
te digo que queria dizer que eu te amo. quero dizer, queria dizer àquela época, quando eu piscava demoradamente os olhos e tão timidamente procurava tatear nos teus escuros à procura... bem, talvez à procura de vc. tudo que veio depois acho que tinha um gosto meio amargo porque no fundo eu queria mesmo é que tivesse sido assim, como eu quis, com você me querendo desde o começo. fico esperando o momento em que vc irá desistir de tudo e me deixará em paz. eu não ficarei em paz, é claro, só ficarei sem vc. não é, definitivamente, a mesma coisa. mas então eu não terei mais que fingir que está tudo bem, nem direi as palavras que vc quer ouvir, nem ficarei repetindo pra mim mesma que afinal valemos a pena, porque afinal nós até somos felizes, e cada vez eu sinto apertar a minha garganta, cada vez eu sinto se fechar sobre mim essa jaula já tão apertada, porque afinal, o amor é, sim, uma prisão. nunca se deve acreditar no contrário, crianças. dói querer fugir, dói tentar ficar. dói olhar pro lado e ver que tudo que você sempre julgou tão precioso é tão frágil e tão inútil que não se sabe dizer se vale a pena tudo isso. me disseram que eu seria feliz. eu acreditei em tudo o que me disseram. mas eu sei, a resposta agora seria outra, eu sei o que todos irão me dizer e nem preciso pensar muito sobre isso. mas eu acreditei, e me enganaram! me disseram, me garantiram, que ia dar tudo certo e eu, agora dirão que a culpa é toda minha, mas eu acreditei. ninguém irá agora me indenizar? será possível que não reconhecerão a minha inocência e a má-fé alheia? mas não, me dirão, a vida é mesmo assim, não se pode querer tudo e etc. e eu tenho tanta sorte de tudo estar correndo tão bem, e ninguém será capaz de reconhecer a angústia delirante do meu sorriso mentiroso e idiota, ninguém dará ouvidos aos silêncios pontuados nas minhas frases ditas de forma tão desesperadamente calma, será possível que é necessário sempre gritar o óbvio, até mesmo pra vc? ah, mas nada, absolutamente nada disso, tem importância nessa vida real aí, na qual eu ando, e respiro, e aparentemente existo.
texto: Rosi
texto: Rosi
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